(por Rebeca Caroline e Thiago Beltrão - pesquisa sobre a consciência de Jesus em relação a sua divindade)
Para especularmos em que momento Jesus tem a consciência sobre a sua divindade é necessário pontuar algumas importantes questões. Somente após a realização do Concílio de Calcedônia (451) a doutrina do monofisismo - que admitia em Jesus Cristo uma só natureza, a divina – elaborada por Eutiques é repudiada, sendo declarada a dualidade em Jesus, ou seja, Cristo foi plenamente humano e plenamente divino, fazendo parte como a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Porém, ao longo da história muitos teólogos e filósofos tentaram de forma individual resolver a questão da natureza de Jesus Cristo que vai de encontro com a razão humana.
Como ponto de partida é usado o Jesus humano, cujo, alguns acreditam que somente nos livros sinóticos é retratado o verdadeiro Jesus histórico que se opõe à descrição idealizada nos quatro evangelhos. Porém, é importante mencionar que é evidente que o Cristo descrito nos sinóticos é tão divino quanto o Cristo retratado por João em seu Evangelho. Tais pesquisadores compreenderam a natureza de Jesus dentro de sua particularidade.
“Schleiermacher falava de um homem com suprema consciência de Deus, Ritschl, de um homem com o valor de Deus, Wendt, de um homem que estava em continuada e intima comunhão de amor com Deus, Beyschlang, de um homem cheio de Deus, e Sanday, de um homem com uma invasão do divino no sub-consiente; - mas, para eles, Cristo é e continuará sendo mero homem” [1].
Apesar da enfadonha busca em negar a divindade de Cristo por várias escolas e pensadores por transcender a razão humana à questão da doutrina das duas naturezas numa só pessoa de nenhuma forma é pautável que leve a desconsideração dos termos em que foi formulada pelo o Concilio de Calcedônia e dos nossos padrões confessionais. Isso ocorre devido, as inúmeras provas bíblicas que todos os que a aceitam como a infalível Palavra de Deus não tem duvidas sobre este assunto. Muitos pensadores que tentam negar a dualidade de Cristo não aceitam as Escrituras Sagradas como prova histórica. Mas, isto implica na maior coletânea de escritos que tem como personagem principal o tal Jesus estudado. E são em cima desses escritos que especularemos em que momento Jesus entende que é Deus.
Os escritos Joaninos e Paulinos evidentemente ensinam a divindade de Cristo. Contudo, no Evangelho segundo escreveu João, encontra-se o conceito mais elevado da dualidade da pessoa de Jesus Cristo. E, nas epistolas paulinas e na carta aos hebreus, também são encontrados conceito semelhante. São as passagens a seguir que nos dão bases a respeito: “Jo. 1.1-3, 14, 18; Jo. 2.24, 25; Jo. 3. 16-18, 35, 36; Jo. 4.14, 15; Jo. 5.18, 20-22, 25-27; Jo. 11.41-44; Jo. 20.28; I Jo. 1.3; I Jo. 2.23; I Jo. 4.14,15; I Jo. 5.5, 10-13, 20. Rm. 1.7; Rm. 9.5; I Co. 1.1-3; I Co. 2.8; II Co. 5.10; Gl. 2.20; Gl. 4.4; Fp. 2.6; Cl. 2.9; I Tm. 3.16; Hb 1.1-3, 5, 8; Hb. 4.14; Hb. 5.8; etc.” [2]
Ainda baseados nas Escrituras Sagradas, principalmente no Evangelho de João, é necessário fazer menção sobre duas questões importantes, uma correlacionada a outra. Primeiramente que não há na Bíblia nenhuma evidência de uma personalidade dual, ou seja, apesar de Cristo ter uma natureza dualista, Ele não tinha uma personalidade distinta entre humano e divino, e sim, uma relação única e integral entre o Filho Humano e o Pai Divino. Sendo assim, ele é o divino encarnado. Vejamos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus” (Jo. 1.1,2). Deve-se observar que no ato da encarnação a natureza divina não sofreu alteração, ou seja, não houve qualquer mudança essencial nos atributos divinos. “Fica bem salientar o fato de que a encarnação foi um ato pessoal. É melhor dizer que a pessoa do Filho de Deus encarnou-se, que dizer que a natureza divina assumiu a carne humana” [3].
Em seguida, é bom notar que ambas as naturezas são representadas nas Escrituras como unidas numa só pessoa. Desta forma, não é que uma parte do divino esteja manifestado em uma natureza humana. Mas, que a pessoa divina do Filho está unida a uma natureza humana. “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo. 1.14). Percebemos aqui que Jesus não é simplesmente o Filho de Deus aqui no mundo – como um ser mitológico -. Porém, o próprio divino encarnado, como já dito anteriormente.
Após fazer tais considerações acima, faremos então, o nosso pensamento especulativo quanto à consciência de Jesus em relação a sua divindade. Partindo do pressuposto que Jesus é a pessoa de Deus na figura do Filho encarnado em uma natureza humana, podemos dizer que como ocorre com todo ser humano que em um determinado tempo firma a sua identidade, ou seja, tem consciência do seu ser, Jesus ao alcançar essa maturidade, automaticamente, compreende a totalidade da sua natureza e da sua missão. “Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele. Quando ele atingiu os doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Terminados os dias da festa, ao regressarem, permaneceu o menino Jesus em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. E, não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém à sua procura. Três dias depois, o achou no templo, assentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. E todos os que o ouviam muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas. Logo que seus pais o viram, ficaram maravilhados; e sua mãe lhe disse: Filho, por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, estamos à tua procura. Ele lhes respondeu: Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai? Não compreenderam, porém, as palavras que lhes dissera. E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens”. (Lc. 2.40, 42, 43, 45-50 e 52).
“Naturalmente, não é possível ter qualquer conhecimento da consciência própria de Jesus, a não ser por meio de Suas palavras, nos termos em que elas são registradas nos evangelhos; e será sempre possível negar que elas expressam corretamente o pensamento de Jesus. Para os que aceitam o testemunho dos evangelhos, não pode haver dúvida de que Jesus estava consciente de que era o próprio filho de Deus. As seguintes passagens atestam isto: Mt. 11.27 (Lc. 10.22); 21.37, 38 (Mc. 12.6; Lc. 20.13); 22.41-46 (Mc. 13.35-37; Lc. 20.41-44); 24.36 (Mc. 13.32); 28.19. Algumas destas passagens atestam a consciência messiânica de Jesus; outras, o fato de que Ele estava cônscio de que era o Filho de Deus no sentido mais elevado. Em Mateus e Lucas há varias passagens nas quais Ele fala da primeira pessoa da Trindade como “meu Pai”, Mt. 7.21; 10.32,33; 11.27; 12.50; 15.13; 16.17; 18.10,19,35; 20.23; 25.34; 26.29,53; Lc. 2.49; 22.29; 24.49. No Evangelho segundo João a consciência que Jesus tinha de que era o próprio Filho de Deus é ainda mais palpável em passagens como Jo. 3.13; 5.17,18 19-27; 6.37-40,57; 8.34-36; 10.17,18, 30, 35, 36, e outras passagens mais” [4].
Apesar de ser um pensamento especulativo baseado no fundamentalismo porque trabalha em cima das Escrituras Sagradas de forma infalível. A exposição deve ser levada em consideração. É certo que a dualidade na natureza de Jesus transcende a nossa razão humana, mas, despir Cristo de sua divindade através do Jesus histórico, também, não resolverá o problema, pois, não há nenhum material historicamente palpável que nos levará a vê-Lo somente como um humano agraciado.
A questão da plena natureza humana e da plena natureza divina de Jesus Cristo, posto pelo o Concilio de Calcedônia, será sempre um mistério incompreensível não encontrando suporte em nossa razão. Por esse motivo, só pode ser aceita pela fé na autoridade da Palavra de Deus.
Gratia et pax,
Rebeca Caroline
[1] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução: Odayr Olivetti. Campinas. Luz para o Caminho Publicações. 1990.Pg. 316
[2] Idem 1. Pg. 317
[3] Idem 1 . Pg. 323
[4] Idem 1. Pg. 317
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